
Mudanças sociais ocorridas no séc. XVIII e XIX levaram a alterações do jogo do poder, que foi sendo gradativamente substituído pelo que Foucault denomina de sociedades disciplinares, as quais atingiram o seu apogeu no século XX. A passagem de uma forma de dominação a outra ocorreu quando a economia do poder percebeu ser mais eficaz e rentável vigiar do que punir .
Coube às sociedades disciplinares organizar os grandes meios de confinamento, os quais tinham como objetivo concentrar e compor, no tempo e no espaço, uma forma de produção cujo efeito deveria ser superior à soma das partes. O indivíduo não cessava de passar de um espaço fechado ao outro: família, escola, fábrica, universidade e eventualmente prisão ou hospital.
O Panóptico é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é, no fundo, a sociedade que atualmente conhecemos utopia que efetivamente se realizou. Este tipo de poder pode perfeitamente receber o nome de panoptismo. Vivemos numa sociedade onde reina o panoptismo. Com o Panóptico e vai produzir algo totalmente diferente. Não há mais inquérito, e sim vigilância e exame. O Panóptico teve uma tríplice função à vigilância, o controle e a correção.
O dispositivo panóptico, descrito por Michel Foucault em Vigiar e Punir, constitui uma ‘máquina’, idealizada por Bentham no século XVIII, cuja arquitetura é formada por uma torre central e uma construção circular periférica. Nesta se encontram indivíduos a serem vigiados – prisioneiros, loucos, escolares, trabalhadores, isolados em células, formando “uma coleção de individualidades separadas” – enquanto naquela se encontram os vigias. As salas da construção periférica são determinadas por janelas externas (por onde entra a luz) e por janelas internas (frente à torre central). E é justamente essa a eficiência do dispositivo panóptico: “ver sem ser visto”; à torre é possível ver tudo o que acontece no prédio externo, ao passo que este nem sabe se é, ou não, vigiado. “A visibilidade é uma armadilha”.
Segundo Foucault (1990), o poder é uma prática social e, por isso mesmo, é constituído historicamente e articula-se com a estrutura econômica. O que Foucault chamou microfísica do poder significa tanto um deslocamento do espaço de análise quanto ao nível que este se efetua. De acordo com a sua categorização, as sociedades e os seus respectivos regimes de visibilidade podem ser divididos em: sociedades de soberania, onde o rei ou senhor exercia o poder, por meio de uma vigilância externa e geral; sociedade disciplinar, na qual as instituições são um dos maiores dispositivos de visibilidade, principalmente com relação ao funcionamento dos operários institucionais; e sociedade de controle veio substituir a sociedade disciplinar, na qual ocorre a implementação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação, ou seja, o exercício do poder a distancia.
Atualmente, encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento da sociedade disciplinar e assistimos à instalação de uma sociedade que controla à distância. Desse modo, a crise das instituições modernas representa a implantação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação. A lógica da sociedade disciplinar é analógica, ou seja, descontinua e diferenciada em cada confinamento, enquanto a da sociedade de controle é numérica e constante.
Exemplos do panoptismo foucaultiano na sociedade contemporânea são vários, principalmente nos Reality Show, programa voltado para um público ávido para assistir o que acontece na casa do "vizinho", virou febre. Foi uma fórmula importada na busca desenfreada pela audiência, apostando no sucesso do inusitado, cheio de recursos tecnológicos, na conquista da mídia e na invasão definitiva da privacidade alheia, é claro. O programa televisivo Big Brother Brasil, da rede Globo, relembra a estrutura de Bentham do século XVIII – “ver sem ser visto”. Os participantes ficam confinados dentro de uma casa, observados por dezenas de câmeras e milhões de pessoas. Inclusive as relações entre os participantes se assemelham às descritas por Foucault. Os mais disciplinados constroem uma imagem positiva, transmitida para a sociedade externa, que funciona como juíza. Aqueles que transgridem, que se rebelam, são literalmente eliminados. E o programa segue, promovendo seu autofuncionamento por um processo de seleção.
Além desse exemplo pode-se citar o cada vez mais utilizado “disque-denúncia”. Roubos de carros, agressão às mulheres, depredação de patrimônio público, crimes contra a fauna e a flora, contra o trabalho infantil, contra o trabalho escravo, assassinatos, espancamentos, estupro, prostituição infantil, abuso sexual, pedofilia etc. No entanto, contra todos estes males, a sociedade possui um dispositivo que pode atuar a seu favor – mais uma vez a sociedade pode agir. Este é um claro exemplo descrito por Foucault de que os poderes, as relações de forças, não se exercem apenas de cima para baixo, pelos “soberanos”; o poder não é exercido, ele simplesmente acontece, como um processo, agrupando todos os atores sociais, e possibilitando a estes, desde que disciplinados, gozarem de seus benefícios, de sua ordem, de sua manutenção, de sua preservação. Porque, ao fazer isso, o indivíduo funciona como o vigia de Bentham, age em benefício do social. Não apenas isso, ele contribui com a ordem vigente, solitária, imanente e independente do poder, que alimenta esse tipo de sujeito e é alimentado por ele. O poder – a disciplina – é preservado.
Por Micael Benaic
Referência
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Ed. Vozes, 29ed., Petrópolis, 2004.

Um comentário:
Há controvérsias quando ligamos o panóptico de Bentham aos dispositivos tecnológicos utilizados nos realities shows, posto que àquele funciona como um meio disciplinar com o objetivo de vigiar (ao mesmo tempo que ocasiona uma auto-vigilância)e punir; já os aparatos tecnológicos dos realities shows, bem como a lógica deste tipo de programa, não têm por objetivo a disciplina, mas o que poderia ser considerado punição passa a ser uma etapa para se alcançar um prêmio, característica essa das sociedades de controle descritas por Gilles Deleuze in "Post-Scriptum sobre as sociedades de controle"(L'Autre Journal,n°1, maio de 1990). Percebemos, também, que o objetivo dos realities shows não é promover a disciplina de seus participantes, mas o espetáculo para os telespectadores.
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