segunda-feira, 31 de março de 2008

Triste fim de Pedro


O enclausuramento acontecera num belo dia de domingo quando os lugares públicos ficam repletos de “famílias de bem” que buscam descontração e alegria com seus entes queridos. Em meios a crianças e adultos reunidos em piqueniques surge o improvável e o constrangedor. A polícia preventiva da cidade planejada de Brasília fora chamada ao parque para “corrigir” um jovem que se banhava, em trajes íntimos, no chafariz do parquinho corrompendo o princípio da normalidade do local.

Em uma delegacia, Pedro, um jovem de vinte e um anos, matutava deitado no chão duro da cela o porquê da sua prisão, o motivo para que aquelas pessoas se incomodassem com o seu gesto inofensivo, afinal era um dia muito quente e aquele era o único meio pelo qual pudesse se refrescar e, apesar de ser morador de rua, tinha o desvelo de manter a higiene pessoal e isso para ele é o poder que uma pessoa exerce em si mesmo.

Sob o olhar vigilante de câmeras instaladas em vários pontos da alcova, o rapaz refletia e pensava em sua saudosa família. Seu pai, um caixeiro viajante, homem de “valores e de moral” aconselhava como um pastor zeloso por suas ovelhas a importância de um individuo ser bem visto pela sociedade e qualquer comportamento fora dos padrões seria motivo para que essa mesma sociedade o recriminasse.

Oriundo do norte do Amazonas, Pedro fora criado em meios a tribos indígenas, embora não fizesse parte dessa comunidade e fizesse leituras extracurriculares de Foucault, e não compreendia seu gestor por este obriga-lo a se comportar de modos contrários aquilo que ele vivenciava; andar descalço, sair com poucas vestimentas, tomar banho ao ar livre. Sociedade do controle?

Com dezoito anos o rapaz confuso decidiu, por pressão do pai, mudar-se para um espaço urbano em busca de respostas e de uma renda capitalista. È o estudo da ecologia humana os deslocamentos humanos em busca de objetivos. Optou por Brasília, “coração do estado brasileiro” e onde queria se alistar no exército. Do serviço militar, logo foi dispensado, embora pudesse conhecer a disciplina pelo qual todos os alistados eram submetidos.

Sem ter sucesso em conseguir emprego e não tendo lugar onde pudesse repousar no fim do dia, Pedro começa a vagar pelas ruas, trepando em algumas árvores que ainda encontrara em busca de frutos para se alimentar. Logo passou a pedir moedas e comidas nos portões das casas de “senhoras de respeito” para que pudesse matar sua fome. O costume de pedir tão logo passou a ser sinônimo de incômodo e ele passou a ser estereotipado pela sociedade de vagabundo, já que não trabalhava e nem estudava, ou seja, não tinha nenhuma “ocupação” que fosse reverenciada pela sociedade, nenhum processo disciplinar.

Não demorou muito para que ele notasse a repulsão que os indivíduos ditos “normais” nutriam pela sua pessoa. Sentiu-se então como Gregor Samsa, de A Metamorfose. Será que a sociedade ainda se comporta como Kafka criticou? Na busca por tentar reverter àquela situação passou a mostrar aquilo que detinha e que ninguém haveria de tomar: Seu conhecimento e sua sabedoria. Então, começou a explicar as indagações de Nietsche, Deleuze e Foucault para todos aqueles que se aproximavam em troca de algum centavo. As pessoas passaram a questionar como um homem de costumes tão “impróprios” e ao mesmo tempo tão inteligentes poderia acabar daquele modo. Julgaram então como um louco.

Mas até esse momento o provável distúrbio mental do jovem Pedro ainda não tinha causado tanto espanto e coação. Até o momento do banho de cueca no chafariz.

Depois de passar uma noite na sala úmida e abafada de uma delegacia, talvez o lugar mais confortável que passara a madrugada desde sua saída do exército, saiu da prisão, lugar que na teoria significa reeducação, mas que na prática não é vivenciada com esses preceitos. Direto para as ruas foi agora denominado “homem perigoso” com ficha policial, uma ameaça para o convívio social.

Sendo observado por todos e todas, o olho que tudo vê deixa nosso “velho herói” encalistrado que a cada dia se esquivava tornando um ser introspectivo e arisco fato que geraria a constatação “para os outros” da sua loucura. A sociedade passa a monitorá-lo. È o controle do “Homem” sobre o homem. O biopoder.


Por: Jacy Nunes

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