quinta-feira, 21 de maio de 2009

Consensos e dissensos: marcas de uma natureza material?

Por Bruna Rafaela, Érica Daiane, Gisa Ramos e Mirrail Meneses

Como no filme “A máquina”, de João Falcão, e visões apresentadas em outras obras do autor, como o texto “A dona da história”, o tempo é a base principal para o entrelaçamento entre o sentido humano-maquínico da vida.

“O Homem-Máquina Hoje”, texto de Sergio Paulo Rouanet, ao trazer as inquietações do médico Julien Offray La Mettrie, desperta-nos sentimentos diversos. Os parágrafos que provocam a embriaguez literária de uns leitores ao concordarem com seus pensamentos e teorias, ao mesmo tempo provoca a ira e a insatisfação de outros ao o verem como radical em suas palavras. Surgem assim, a partir do mesmo emaranhado de idéias, os dissensos e consensos constantes.
Acerca do pensamento do filósofo La Mettrie observa-se que muito do que ele pensou no século 18 está presente nos atuais paradigmas da pós-modernidade, cada vez mais crescentes no século em que vivemos.

Em certo momento, a leitura fez-nos entender que o filósofo-médico levanta uma discussão, própria dos iluministas, apelando para o uso da razão, exaltando mais o homem-corpo, físico, palpável, do que o homem-espírito. A alma é colocada como mera invenção de instituições religiosas que desejavam manter subjugado o próprio homem. Para La Mettrie o caminho de realização do homem passa primeiramente pela satisfação de suas necessidades biológicas.

Outro aspecto do pensamento do filósofo francês é a não diferenciação entre o ser humano e animais irracionais. O homem seria um animal qualquer, sem alma, guiado basicamente pelos impulsos naturais de seu organismo, capaz de pensar com seu cérebro, que tem como objeto a felicidade que só seria alcançada mediante a satisfação de seus desejos naturais de prazer.

Apontamos algumas considerações acerca das idéias de La Mettrie: elas nos ajudam a desconstruir um pouco nossa visão de mundo baseada apenas na educação formal e familiar que tivemos, para pensar em outros modos possíveis de se viver a vida.

A reivindicação do filósofo é pela autonomia do homem perante instituições religiosas, e contra os diversos tipos de preconceito em especial com relação ao próprio prazer (que na época era um tabu), além de sua afirmação da importância do corpo. Porém, quando La Mettrie coloca o valor do ser humano somente no que ele faz e não naquilo que ele é em sua essência (Cf. p.42), isso pode provocar uma grande desvalorização do próprio ser humano. Na lógica o-homem-vale-o-que-faz, o ser humano se torna um objeto praticamente mercadológico que vale aquilo que produz. Cabe aqui uma análise das tantas formas de exploração do homem pelo homem, algo que instalou numa sociedade de outrora e se perpetua até hoje, de forma cada vez mais intensa.

Tratam-se de reflexões que nos permitem olhar com lucidez a própria humanidade, essencial no percurso da formação de estudantes de Comunicação/Jornalismo. As provocações trazidas pelo texto podem contribuir na compreensão/apreensão de outras formas de se enxergar a vida, os preconceitos e tabus que a sociedade ainda insiste em manter, devido à pouca reflexão crítica acerca de seus próprios comportamentos.

Sergio Rouanet, aponta suas críticas com relação ao reducionismo teórico, ao niilismo moral e ao autoritarismo político de La Mettrie. Mas também, por outro lado, faz-nos questionar mais do que chegar à conclusões.

O médico-filósofo nega o livre arbítrio, entretanto, “estava convencido de que a natureza tinha constituído essa máquina como independente, capaz de auto-regulação”. Propõe que, a partir do “hedonismo (o prazer como fim último da vida) sem limites”, haja o controle social interno, através da supressão da culpa, o que é possível alcançar pela não obediência ao superego.

La Mettrie sugere a existência de uma natureza, mesmo envolvida em um conjunto de peças e engrenagens que constituem o homem-máquina. É essa natureza que nos permitiria fugir da submissão às instituições religiosas, por exemplo. Contudo, ao trazer uma objeção que dá conta de monismo radical, diz que “é sua ‘máquina’ que os impele necessariamente a uma certa direção”. Então, aqui já não há mais a determinante (se assim possamos dizer) natureza material? Nessa posição de “corpo matéria”, “homem-máquina”, a existência dos moldes na sociedade são conseqüências das máquinas ou as máquinas são conseqüências desses moldes e padrões?

No final de tudo, a autonomia (ser humano livre, dotado de emancipação social ou biológica) está submissa ao tempo, a máquina maior que permite o ir e vir das discussões, problemas e problematizações da vida humana. O vai-e-vem de idéias que viram teorias e “forjam” descobertas científicas, divinas, que se atualizam a cada geração, estão cada vez mais a nos envolver.

E envolvemo-nos tanto, que, muitas vezes, nem somos mais capazes de questionar, ter idéias, teorizar... como fez La Mettrie.


Referência

ROUANET, Sergio Paulo. O Homem-máquina hoje. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Bibliografia

- Filme “A máquina” – João Falcão
- Espetáculo teatral “As donas da história” – da obra de João Falcão
- Leituras e conversas tantas.