Por Luís Osete
“É um aparelho singular – disse o oficial ao explorador, percorrendo com um olhar até certo ponto de admiração o aparelho que ele no entanto conhecia bem”. Assim se inicia a novela “Na colônia Penal” (1914), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924).
Uma novela sucintamente alegórica, na qual o lapidar estilo kafkaniano apresenta uma máquina capaz de torturar um condenado por horas a fio, até inscrever em seu corpo o mandamento inalienável, a síntese das eras, a verdade última da humanidade, o supra-sumo: “Honra o teu superior!”.
Para acompanhar os preparativos da cerimônia de tortura e execução, um observador estrangeiro foi convidado, descrito por Kafka como “o explorador”. Além dele, participam da novela “o soldado”, “o condenado”, “o oficial” e “o comandante”, que nunca aparece fisicamente, mas que a todos assombra com uma forte onipresença.
O oficial, responsável pela criação da engenhosa máquina e encarregado de ministrar a justiça, é o guia do explorador no itinerário de toda a cerimônia de tortura. É ele quem descreve, com indisfarçável prazer, os detalhes sórdidos de uma máquina concebida para que cada condenado sinta na pele o peso de, inadvertidamente, ter cometido a “loucura” (à La Mettrie) de não se sujeitar a uma “vontade que lhe seja exterior”. Ou seja, que tenha tido a audácia de pleitear ser “autônomo”.
O explorador, arquétipo do observador neutro, objetivo e imparcial, percorre as linhas da novela com olhos e ouvidos atentos aos movimentos e palavras do oficial. Tudo parece caminhar tranquilamente para um final infeliz e previsível: a execução do condenado, a partir do funcionamento da máquina. Mas só se não for Kafka nessa hora, só se não for a figuração da “máquina do mundo” nessa hora...
E o aparelho singular, com todo o seu engenho, com toda a sua precisão, com toda a sua literalidade (até mesmo com toda a sua delicadeza), falha. O oficial, com toda a sua geométrica análise dos fatos, com todos os seus gestos e frases previamente calculados, com toda a sua humilde sujeição a uma vontade externa (a ordem de um superior), é um ser humano: de carne, osso, sentimentos e remorsos: essa “reminiscência desagradável”, esse “antigo hábito de sentir, que retoma seu predomínio”, o maior de todos os inimigos do homem, segundo La Mettrie.
Entre o remorso e a frustração de não mais conseguir colocar em funcionamento a velha “máquina do mundo”, o homem-máquina-mundo se tece na singeleza da solidão profunda...
E o grand finale (“a hora da estrela”, se, ao invés de Kafka, fosse Clarice) se apresenta: simples e eterno...
E eu não posso ir além do que já fui. Detesto quando contam o final das histórias que não li...
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Notas sobre um aparelho singular: a máquina do mundo...
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