quinta-feira, 21 de maio de 2009

O Homem, máquina do prazer

Por Quercia Oliveira

“O homem tem como vocação essencial o prazer, principalmente o prazer dos sentidos (...) e a volúpia, (...) um prazer sublimado, que o homem desfruta depois do prazer, gozando o gozo.”* Com estas palavras, Sergio Paulo Rouanet, 2003, nos apresenta a visão hedonista do médico-filósofo Julien Offray de La Mettrie, cuja concepção do homem enquanto máquina nos traz, paradoxalmente, a autonomização perante o divino e a determinação biológica da humanidade.

Num primeiro movimento, a alma, tida nos períodos clássico e medieval como transcendental, é revestida de materialida. Assim, o homem assume uma postura autônoma perante o divino e as instituições religiosas, uma vez que seus impulsos racionais estão contidos em si, e não suspensos ou determinados pelo transcendental.

Estes impulsos, contudo, meramente biológicos, a partir da visão hedonista de La Mattrie, determinam a ação humana. Dizendo de outra forma, o agir do individuo é condicionado pela satisfação de prazer dos sentidos, força autônoma sobre a qual ele não tem poder de decisão. Assim, o homem é equiparado ao animal e, seguindo a lógica de Descartes, à máquina.

Afora o reducionismo teórico e as problemáticas morais, a redução da ação humana aos impulsos biológicos, apesar de promover uma suposta libertação individual, pouco contribui para mudanças sociais, uma vez que esta dimensão e a influência do meio perante a ação do homem-máquina são, praticamente, excluídas do esquema.

Seguindo esta lógica, os contemporâneos debates e descobertas acerca do DNA humano, trazem a possibilidade da “escravidão genética” uma vez que, as características, impulsos e, conseqüentemente, ações humanas estão previstas nos seus DNAs, possíveis de fabricação em laboratório.

Afastando-nos, porém, de visões extremistas, perceberemos a contribuição de La Mettrie para a autonomização do humano, e de seu corpo, perante o julgo divino e a precedência para formulações de um homem cujo princípio norteador é a satisfação do prazer, também sexual, sem recalques. Assim, nos aproximamos do homem, enquanto máquina do prazer, de carne, osso e vontade própria, conscientemente auto-regulável.

*( ROUANET, 2003,p. 38)


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ROUANET, Sergio Paulo. O Homem-máquina hoje. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 37-64.