quarta-feira, 27 de maio de 2009

Uma triste despedida...

Por Luís Osete

Para ler ouvindo “Meu refrigerador não funciona”, do álbum “A divina Comédia” (1970), dos Mutantes...

A assistente olhou para o assistente que olhou para a assistente que olhou para o vazio...

- Diga a ele o que aconteceu...

Disse um dos dois. Ou disseram os dois?...

E eu ali, perplexo, com o olhar perdido nos objetos em volta, como quem já busca um refúgio em qualquer miragem, como quem já não precisa ouvir mais nada...

- A gente tentou de tudo, mas...

E meus olhos encheram-se de lágrimas. Senti a gelidez de uma tela que me serviu de apoio à vertigem...

- Sente-se aí, por favor... O senhor está pálido...

- Ele representava muito para mim...

Foi o que consegui dizer naquele momento. Pedi um copo de água à assistente e, com o olhar contrito, mergulhei num rio de lembranças...

Lembrei-me do dia em que ele chegou a minha casa, numa manhã de sol claro e céu sem nuvens, como diria a moça do tempo. Interessante: a partir da vinda dele, nada mais foi previsível em minha vida. Tantas moças desfilaram em sua frente, enquanto os dias se sucediam num emaranhado de sentimentos sorvidos em nossa breve relação...

Nesse ínterim, quantas noites tornaram-se dia, à vista dos nossos sorrisos? Quantas tardes quentes debruçadas ao espanto de seu brilho infinito? Quantas solidões alimentadas e dissolvidas ao doce deslizar das palavras? Quantas vidas inventadas? Quantas invenções ditadas? Quantos sonhos vivenciados nas noites de insônia? Quantos planos realizados na dialética da ilusão vital que construímos?...

Quantos quantuns e quantidades inquantificáveis?...

- Aqui está o seu copo de água. Eu coloquei uma colher de açúcar, viu?

- Obrigado. Não sei nem como te agradecer...

- Não precisa. Eu só queria que você soubesse que nós fizemos de tudo para reanimá-lo. Ontem mesmo ele passou o dia inteiro ali...

Apontou-me uma mesa de mármore...

- De certa forma, eu já sabia que ele não iria resistir, mas é sempre um choque...

- Sem dúvida. A gente atende muitos casos assim. Eu também já passei por isso, acredite...

Detesto quando as pessoas tentam me consolar assim: comparando sofrimentos. E interrompi a conversa ali mesmo. Virei o rosto para um mostruário e fiquei tentando me lembrar de como crescemos juntos...

De como ele guardava, em sua memória prolífica, os momentos mais significativos de minha juventude: meus versos ingênuos eram por ele recitados a qualquer hora, minha primeira fotografia era sua imagem mais nítida, o que se pôde registrar de minha interiorana infância povoada de fantasmas e alegorias eram seus mais ricos apontamentos...

Meus devaneios, minhas dádivas, meu tudo, meu nada...

- Ó Deus, para onde vão estes seres que, ao morrer, nos deixam em completo abandono? Em que planeta paira a memória que se apaga no exato momento em que se desliga do real? Por que eu nunca dei atenção às reminiscências por ele guardadas com o fervor de um ente que aspira ser eterno, mesmo sendo finito? Por quê?...

Suspirei, numa consternação sem medida. E, não encontrando respostas, continuei navegando em lembranças...

Gramático inveterado, adorava corrigir meus deslizes gramaticais, como se eu deveras sempre precisasse de seu auxílio luxuoso. Fazia questão de me mostrar que uma palavra, por mais estranha que possa parecer, sempre tem um sinônimo ainda mais estranho. E uma imagem, por mais jornalisticamente objetiva, encerra diversas perspectivas, luzes, cores, tons...

Ser inclassificável, às vezes abandonava o papel de educador, historiador e filósofo de primeira categoria, para me entreter, com seus truques de cartas, com suas brincadeiras infantis, com suas músicas emanadas do fundo de algum cabedal infinito, com o fascínio de sua simplicidade pueril...

Um revelando ao outro, parafraseando Caetano Veloso, as dores e as delícias de sermos o que somos. E fomos. Numa cumplicidade mágica, em que nem as mais terríveis adversidades conseguem dissolver...

- A gente só precisa de sua autorização para iniciar os trabalhos...

A voz do assistente soou dolorida, junto ao último sopro de uma lembrança fugidia, que eu tentava reconstituir naquela sala cercada de objetos que só faziam aumentar ainda mais a minha aflição...

O certo é que eu já estava há mais de 20 minutos com o rosto sombrio e o copo cheio de ar, mas bem que, tal como Gilberto Gil, ele poderia lembrar “que o ar sombrio de um rosto/ está cheio de um ar vazio/ vazio daquilo que no ar do copo/ ocupa um lugar...”. Um lugar de lembranças, de momentos, de encontros e, principalmente, de despedidas: ah, tristes despedidas...

E na manhã do dia 17 de maio de 2009, de sol entre nuvens e céu cinzento, meu computador foi formatado numa Assistência Técnica, situada à Avenida Adolfo Viana, centro de Juazeiro-BA...

Estas linhas são meus primeiros registros neste outro ser múltiplo e inclassificável, de memória prolífica, resultado da morte (formatação) de um camarada importante em minha vida...

(também postado no blog de Germano: www.clubedecarteado.blogspot.com)

Um comentário:

Novos Brasis disse...

Olá,
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Att.,
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