Aos/as leitores/as mais apressad@s, desculpmem-me se me excedi na escrita.
Muitos teóricos e ativistas da luta pela Democratização da Comunicação aportam-se à necessidade de se pensar um outro modelo de Comunicação para o Brasil. Tal necessidade parte da discordância com o modelo vigente, devido aos moldes pouco democráticos que norteiam o fazer comunicativo, tanto no âmbito dos meios de comunicação quanto nas estruturas públicas como um todo.
A comunicação interpessoal configura-se como elemento imprescindível nos ambientes sociais. Na sociedade contemporânea, a comunicação de massa, a comunicação popular ou comunitária é, juntamente com a educação, a responsável pela formação política, social e cultural de toda a população. Para Guareshi (2004), os meios de comunicação são indispensáveis na criação, transmissão, mudança, legitimação e reprodução das culturas. Já Soares (2003) fala da inter-relação entre os dois campos, comunicação e educação, resultando em um novo campo teórico-prático de intervenção social, a educomunicação, colocada pelo autor como “caminho para a cidadania”.
Neste início de século verifica-se o crescimento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s), que tem sido apontadas como importante instrumentos de mediação e construção do conhecimento, bem como de democratização da comunicação e da informação.
No entanto, é preciso ainda aprofundar a discussão quanto ao uso adequado dessas ferramentas, sobretudo no âmbito da educação formal que pouco tem aproveitado as possibilidades oferecidas por tais inovações. É comum, por exemplo, ter nas escolas aparelhos eletrônicos, como televisores, aparelho de DVD, computadores sendo inutilizados. Outro fator preocupante é a perspectiva de inclusão digital que é trabalhada (quando é) nos espaços de educação formal. Na maior parte das experiências, tal perspectiva equivoca-se devido a não abordagem do viés educomunicativo dessas novas tecnologias. Na lógica da democratização da comunicação, a inclusão só acontece a partir da tomada de consciência dos sujeitos envolvidos no processo quanto à utilização da comunicação (neste caso, especificamente de seus meios) como estratégia de organização e desenvolvimento social.
Nesta perspectiva, as experiências de comunicação e educação que se dão nos espaços informais se processam justamente a partir desta tomada de consciência quanto ao poder destas áreas no processo de transformação social. Se no contexto das duas áreas, há uma relação entre a teoria e a prática, se há uma intervenção social e uma reflexão sobre esta prática, pode-se apontar a existências de experiências educomunicativas.
A escola tradicional tem se distanciado do cumprimento de seu papel enquanto propulsora de uma educação libertadora, que, conforme definia Paulo Freire, está ancorada na relação dialógica entre educador/a e educando que, juntos, irão construir o conhecimento. A comunicação também não tem exercido a função social que lhe é atribuída, desconsiderando a própria condição de direito humano.
É com base nessa constatação que passa a existir a contraposição dos modelos de se comunicar e educar. É isso que justifica, por exemplo, a existência de uma comunicação hegemônica e uma comunicação alternativa. De modo geral, a contra-hegemonia surge dos movimentos sociais que, preocupados com uma emancipação popular necessária à mudança da sociedade, passam a propor formas de sensibilização. Tal sensibilização se faz necessária porque parte-se da idéia de que o modelo dominante aliena os indivíduos, na perspectiva de garantir a aceitação do que lhes é imposto.
Os meios de comunicação, teoricamente, divulgadores da informação de qualidade, isenta e preocupada com o bem estar social, na prática, não cumprem por completo esta função. Dessa insatisfação com a mídia “oficial” surge a mídia “alternativa”. De acordo com os estudos de Lorenzon (2009, p. 20), o termo mídia alternativa, inicialmente, aparece “associado à radiodifusão comunitária, como opção aos processos hegemônicos de comunicação, e possui, portanto, relação com a democracia”. Contudo, a chamada mídia alternativa compreende uma gama de possibilidades de se fazer comunicação, cujo foco principal é a garantia dos processos comunicativos horizontalizados, nos quais a população possa ser tanto receptora quanto produtora/emissora de informação. Nesse modelo proposto deve haver, de fato, a valorização da diversidade sócio-cultural e dos princípios democráticos que devem estar expressos nas formas de construção coletiva.
Esse conjunto de ações, executadas nos moldes da comunicação hegemônica ou no modelo alternativo proposto, só é possível porque pessoas (conscientes, sensibilizadas ou mesmo alienadas) se propõem a serem parte desta conjuntura. E, numa sociedade mediada pelas diversas mídias, resultado das mais engenhosas TIC’s, não há como controlar a produção da informação. Nesse sentido, vem à tona a necessidade de se discutir quem pode (legalmente) exercer o direito de ser produtor/a desta comunicação.
A comunicação enquanto área ou campo do conhecimento divide-se por habilitações, onde algumas ganham destaque quando trata-se do exercício profissional, exigindo formação acadêmica especifica. Cada uma das suas sub-áreas, se assim podem ser denominadas, realizam atividades distintas, porém todas possuem sua devida importância na veiculação do produto final, a informação.
Para que haja o aprofundamento do conhecimento e assim o ajustamento da prática, surgiu a Universidade e, neste caso, os cursos de Comunicação Social. Entretanto, desde sua criação até os dias atuais, ainda não foram criados mecanismos capazes de garantir a todos os indivíduos interessados o acesso a tal formação, fator que define a educação universitária como um privilégio de uma minoria.
Diante disso, faz-se necessário pensar as formas de se fazer comunicação, atentando para as reflexões que podem ser feitas acerca do uso das tecnologias como instrumentos de democratização ou reprodução de um sistema alienante e opressor. É importante também analisar se a formação necessária para o exercício profissional das habilitações da comunicação passa, obrigatoriamente, pela academia, uma vez que esta não é democrática.
Portanto, os valores éticos necessários para que haja o compromisso com a prática da profissão, devem ser a preocupação principal daqueles/as que, de fato, acreditam numa comunicação livre, verdadeiramente democrática, capaz de promover o exercício pleno da cidadania.
Referências
GUARESCHI, Pedrinho A. A realidade da comunicação – visão geral do fenômeno. In: GUARESCHI, Pedrinho A. (Coord.). Comunicação e controle social. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
LORENZOM, Adriane. Poder local no ar: municipalização das rádios comunitárias e fortalecimento de esferas públicas locais no brasil. Brasília: Abravídeo, 2009.
SOARES, Ismar de Oliveira. Educomunicação e cidadania: a construção de um campo a partir da prática social. In: PERUZZO, Cicilia Maria Krohling e ALMEIDA, Fernando Ferreira de (Organizadores). Comunicação para a cidadania. São Paulo: INTERCOM; Salvador: UNEB 2003.

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