sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A eterna novidade

Por Luís Osete

Meu corpo flutuou por alguns minutos, girando, girando, girando...

E eu já não sabia se era sonho ou se uma força qualquer (muito além do pensamento) me erguia do chão. Tudo, em mim, se retorcia, acompanhando movimentos circulares de um ambiente que aos poucos me encurralava, numa cercania em que cada saída era a chegada: eu, homem duplicado, vivia a duplicidade de viver...

E quanto mais eu tentava me desprender, mais me sufocava. A televisão, com suas magnéticas luzes multicoloridas, se transmutara numa roldana, fazendo a cama girar. O computador, à revelia de minhas insistentes digitações, desfilava uma única frase: As flores da vida não passam de ilusões .

Tentei chegar à estante para abrir um livro de Alberto Caeiro. De súbito, as palavras saíram voando. Desenharam, na parede, os versos: Sinto-me nascido a cada momento / para a eterna novidade do mundo.

Fiquei confuso. “Mas Alberto, se o eterno é fora do tempo, como pode se apresentar novidade?”, gritei. Depois me detive na reflexão sobre o aparente paradoxo: o atual, o fluido, o tempo, a liberdade...

O registro diário de um mundo caduco é uma eterna novidade? A ética que se faz beleza (ou vice versa) está fora do tempo ou é pura temporalidade? Como podemos apalpar a atualidade, escravos que somos do que é trans? O meio, a mediação, o meu olhar é nítido como um girassol...

Um poema, como uma flor, foi brotando da parede. Tenho o costume de andar olhando para a esquerda e para a direita / e de vez em quando olhando para trás. Quanto tempo ainda restará para que o simples ato de atravessar uma rua, olhando para a direita e para a esquerda, seja prova de um anacronismo anti-tecnológico?

Acoplar-se, virtualizar-se, ser semente – pura vontade de potência. E o que vejo é sempre aquilo que nunca antes eu tinha visto / e sei dar por isso muito bem. Eu via imagens da minha infância se sobrepondo no teto, parede, porta, janela, feito uma correnteza-cinza-esverdeada-do-azul-violeta-do-céu...

Sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras. E, como uma tarde que cai sobre as águas espelhadas do rio, libertei-me das amarras que me prendia (ou me conectava?) à roldana...

Acordei. E, como tudo em minha volta pareceu moderno, agora só quero uma coisa, Alberto: ser eterno...

Um comentário:

Érica disse...

Aí, Osete... eu não lhe disse que de vez em quando dou uma passada por aqui? Pois bem, aqui no meu canto, só - momento raro nessa rotina agitada que escolhi pra mim - um sonzinho mais tranquilo de Engenheiros do Hawai, um incenso e, para-além disso, o som essurdecedor do silêncio... fico a ler, reler as palavras grafadas em "Tic e Soc".

Até mais,
Érica