Por Silvana Costa e Cecílio Ricardo
Quando começou a surgir, ou quando começamos a nos dar conta, encaramos a tecnologia como uma revolução material. Atualmente tecnologia nos remete a inteligência artificial, robótica, pós humano, e nos esquecemos de criações outras, que em tempos mais remotos eram os tais avanços tecnológicos. Bibliotecas, fogo, carroças, discos de vinil, mimeografo, velas, calendários, nomes de lugares e pessoas são tecnologias.
Devido ao desenvolvimento tecnológico, o que ontem era progresso hoje é retrocesso. A tecnologia mostrou-se tão forte ou investimos tanto nela que virou um superpoder e uma dualidade, produzimos para avançar e retrogradar. Os aparelhos de ar condicionado: “quanto mais gelam mais esquentam”, ou seja, em regiões quentes subentende-se que seria “necessário” o uso dos tais equipamentos, porque o “calor é insuportável”. Mas será que em todo ambiente dessas regiões o clima vai mudar? Vai! Os que tiverem condicionadores de ar serão “ambientes climatizados” e contribuirão para a região, e não apenas aquela, ficar ainda mais quente. É o chamado aquecimento global, o fenômeno climático que estabelece o aumento da temperatura média da superfície terrestre, tornando-se o mais grave problema ambiental causado pela humanidade. Estudos realizados revelam que no início desse século a temperatura do planeta subiu quase 2ºC.
O aumento das temperaturas pode provocar o aumento do nível dos oceanos, a quantidade e o padrão das chuvas. É possível ainda que essas alterações aumentem a freqüência e intensidade de eventos meteorológicos extremos como inundações, secas, ondas de calor, furacões e tornados. Outras conseqüências incluem reduções na produção agrícola, diminuição das geleiras, redução das correntes de verão, extinção de um grande número de espécies e o aumento de organismos transmissores de doenças.
O aquecimento global ocorre devido a fatores naturais e humanos. Entretanto, 95% corresponde às ações deste último. Quanto tempo passamos embaixo do chuveiro? Quantas horas por dia a televisão fica ligada sem ter nem um sujeito assistindo-a? Quantas roupas, papéis, brincos, sacolas plásticas, combustíveis fósseis, perfumes e mais uma infinidade de coisas consumimos diariamente sem a mínima necessidade?
Os objetos de consumo, a medicina, o comportamento, tudo é orientado pela tecnologia. Durante toda a história o ser humano buscou formas de superação e comodidade. Desta forma, foi desenvolvendo e inventando instrumentos tecnológicos. Podemos dizer então que a necessidade é a mãe das grandes invenções tecnológicas e vice-versa.
A relação entre ciência e tecnologia contribui tanto para o prolongamento da vida quanto sua destruição. No século XX, a descoberta da penicilina originou a criação de antibióticos e fez com que diminuísse o número de mortes causadas por doenças infecciosas. Em Israel, o governo investe em pesquisas - mais de 80% dos trabalhos científicos publicados no país são desenvolvidos nas universidades. Apesar de ser um país com dificuldades causadas pelo clima e por intermináveis conflitos, Israel apresenta estudos importantes em áreas como medicina, agricultura e informática. De acordo com a consultoria Business Data, Israel é o terceiro país em número de registro de patentes por ano nos Estados Unidos, à frente de potências como Alemanha, França e Reino Unido. A produção só é possível devido, principalmente, ao investimento do governo.
Num contexto caracterizado por rápidas e constantes mudanças, onde o conhecimento e a sua gestão adquirem uma importância cada vez maior e decisiva para a competitividade nos enlaces sociais, assiste-se à adoção e implementação, por vezes desenfreada e pouco refletida, de sistemas “tecnoinformacionais”, na expectativa de que estes resolvam problemas. Pouco se procura compreender de que forma as normas e os comportamentos sociais determinam o modo como essas tecnologias são utilizadas.
Na verdade, essa coisa toda nos parece labiríntica. Sabemos que os objetos “tecnoinformacionais” representam uma forma de racionalidade produtora de sentido. Trata-se de uma esfera tecnosimbólica em que os sujeitos se envolvem, sentem se protegidos e passam a ver se e a se relacionar com o mundo e com o outro. Na contemporaneidade, as próteses midiáticas passam a participar cada vez mais da produção de sentidos nos processos de configuração do ambiente, da moradia, dos modos de fazer e de viver, de conviver e de representar a realidade. Pode-se dizer que os objetos “tecnoinformacionais” se constituem como novos lugares de significação, de racionalidade dos processos sociais, em suma, como diz MartínBarbero, dimensão constitutiva da produção de sentido.
Nos últimos 50 anos, a introdução de novas técnicas de comunicação e informação gerou uma ruptura histórica, uma quebra de paradigma resultante de inéditas transformações tecnológicas. Os novos padrões substituem o contato territorialmente limitado, dando maior alcance e velocidade às pesquisas a partir da interação de seus autores, independente do tempo e do espaço. A respeito da progressiva incorporação de ferramentas tecnológicas interativas, convém referir que estas conduzem à criação de espaços de interação entre os comunicadores e os destinatários. Para André Lemos, trata-se, portanto, em insistir, não em uma lógica excludente, mas em uma dialógica da complementaridade.
Nos domínios das ciências e das tecnologias, sobretudo em nossos dias, estão presentes os problemas éticos. Criadas para salvar vidas, a biotecnologia e a engenharia genética, por exemplo, tornaram-se empórios. Comercializam órgãos, pessoas e vidas. Priorizam classe social, raça e poder. Podemos verificar que o conjunto de circunstâncias em que se produz a mensagem interfere diretamente na ética e na estética. Tudo possui uma identidade. Temos montado em nosso universo o conjunto de símbolos que nos acostumamos a utilizar. Quais conjuntos utilizamos e em quais situações são definidos pelo contexto. Assim, compreende-se que as mudanças promovidas pela tecnologia acarretam alterações na identidade cultural do ser humano. O uso de piercing, tatuagens, mitigar as marcas do envelhecimento, as salas de relacionamento virtuais provocam sensações que nos oferecem a oportunidade de transgredir os limites do corpo e acreditar que a mente está livre.
O desejo de escapar do tempo e do espaço é o que Erick Felinto estabelece como relação entre as teorias da cibercultura, o transhumanismo que elas encarnam, e o mito do ciborgue. O autor explana também sobre uma convergência entre saber teórico e imaginário ficcional. Revela que nunca antes o domínio das tecnologias e da ciência esteve tão penetrado pela retórica dos mitos e pela lógica das alegorias e metáforas. Felinto chama atenção para a maneira como os novos mitos trazem de volta à nossa “hipermodernidade”, antiqüíssimas imagens de deuses e religiões passadas.
Para André Lemos, o conceito de cibercultura está vinculado à recombinação. Esta por sua vez é resultado da soma das chamadas “três leis fundadoras”: liberação do pólo de emissão, conexão em rede e reconfiguração das mídias e práticas sociais. A liberação do pólo de emissão é considerada a primeira lei da cibercultura. Exemplificando, significa, várias vozes e discursos se manifestando em oposição à uma edição de algum veículo transmissor de massa. A segunda lei é o princípio da conectividade generalizada, que diz respeito à distribuição de informação via rede telemática. A terceira lei trata da reconfiguração dos meios e das estruturas sociais a partir das relações entre sociedade e as novas tecnologias. É necessário ressaltar que a reconfiguração de um meio tradicional não significa o seu fim, mas a sua readaptação num novo contexto, visto que cada produto tem público e demandas diferenciadas.
Contrapondo a idéia de completivo defendida anteriormente, Robert Fulghan, considera que “[...] para que alguma coisa viva é preciso que outra se afaste para abrir caminho. Não há vida sem morte. E não há exceções. Tudo passa. As coisas vêm e vão. Gente. Anos. Idade. Tudo. Gira a roda do mundo e o velho abre caminho para o novo servindo-lhe de pasto e de ninho”.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
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