quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Vidas tecnológicas

Por Silvana Costa e Cecílio Ricardo

Quando começou a surgir, ou quando começamos a nos dar conta, encaramos a tecnologia como uma revolução material. Atualmente tecnologia nos remete a inteligência artificial, robótica, pós humano, e nos esquecemos de criações outras, que em tempos mais remotos eram os tais avanços tecnológicos. Bibliotecas, fogo, carroças, discos de vinil, mimeografo, velas, calendários, nomes de lugares e pessoas são tecnologias.

Devido ao desenvolvimento tecnológico, o que ontem era progresso hoje é retrocesso. A tecnologia mostrou-se tão forte ou investimos tanto nela que virou um superpoder e uma dualidade, produzimos para avançar e retrogradar. Os aparelhos de ar condicionado: “quanto mais gelam mais esquentam”, ou seja, em regiões quentes subentende-se que seria “necessário” o uso dos tais equipamentos, porque o “calor é insuportável”. Mas será que em todo ambiente dessas regiões o clima vai mudar? Vai! Os que tiverem condicionadores de ar serão “ambientes climatizados” e contribuirão para a região, e não apenas aquela, ficar ainda mais quente. É o chamado aquecimento global, o fenômeno climático que estabelece o aumento da temperatura média da superfície terrestre, tornando-se o mais grave problema ambiental causado pela humanidade. Estudos realizados revelam que no início desse século a temperatura do planeta subiu quase 2ºC.

O aumento das temperaturas pode provocar o aumento do nível dos oceanos, a quantidade e o padrão das chuvas. É possível ainda que essas alterações aumentem a freqüência e intensidade de eventos meteorológicos extremos como inundações, secas, ondas de calor, furacões e tornados. Outras conseqüências incluem reduções na produção agrícola, diminuição das geleiras, redução das correntes de verão, extinção de um grande número de espécies e o aumento de organismos transmissores de doenças.

O aquecimento global ocorre devido a fatores naturais e humanos. Entretanto, 95% corresponde às ações deste último. Quanto tempo passamos embaixo do chuveiro? Quantas horas por dia a televisão fica ligada sem ter nem um sujeito assistindo-a? Quantas roupas, papéis, brincos, sacolas plásticas, combustíveis fósseis, perfumes e mais uma infinidade de coisas consumimos diariamente sem a mínima necessidade?

Os objetos de consumo, a medicina, o comportamento, tudo é orientado pela tecnologia. Durante toda a história o ser humano buscou formas de superação e comodidade. Desta forma, foi desenvolvendo e inventando instrumentos tecnológicos. Podemos dizer então que a necessidade é a mãe das grandes invenções tecnológicas e vice-versa.

A relação entre ciência e tecnologia contribui tanto para o prolongamento da vida quanto sua destruição. No século XX, a descoberta da penicilina originou a criação de antibióticos e fez com que diminuísse o número de mortes causadas por doenças infecciosas. Em Israel, o governo investe em pesquisas - mais de 80% dos trabalhos científicos publicados no país são desenvolvidos nas universidades. Apesar de ser um país com dificuldades causadas pelo clima e por intermináveis conflitos, Israel apresenta estudos importantes em áreas como medicina, agricultura e informática. De acordo com a consultoria Business Data, Israel é o terceiro país em número de registro de patentes por ano nos Estados Unidos, à frente de potências como Alemanha, França e Reino Unido. A produção só é possível devido, principalmente, ao investimento do governo.

Num contexto caracterizado por rápidas e constantes mudanças, onde o conhecimento e a sua gestão adquirem uma importância cada vez maior e decisiva para a competitividade nos enlaces sociais, assiste-se à adoção e implementação, por vezes desenfreada e pouco refletida, de sistemas “tecnoinformacionais”, na expectativa de que estes resolvam problemas. Pouco se procura compreender de que forma as normas e os comportamentos sociais determinam o modo como essas tecnologias são utilizadas.

Na verdade, essa coisa toda nos parece labiríntica. Sabemos que os objetos “tecnoinformacionais” representam uma forma de racionalidade produtora de sentido. Trata-se de uma esfera tecno­simbólica em que os sujeitos se envolvem, sentem se protegidos e passam a ver ­se e a se relacionar com o mundo e com o outro. Na contemporaneidade, as próteses midiáticas passam a participar cada vez mais da produção de sentidos nos processos de configuração do ambiente, da moradia, dos modos de fazer e de viver, de conviver e de representar a realidade. Pode-se dizer que os objetos “tecnoinformacionais” se constituem como novos lugares de significação, de racionalidade dos processos sociais, em suma, como diz Martín­Barbero, dimensão constitutiva da produção de sentido.

Nos últimos 50 anos, a introdução de novas técnicas de comunicação e informação gerou uma ruptura histórica, uma quebra de paradigma resultante de inéditas transformações tecnológicas. Os novos padrões substituem o contato territorialmente limitado, dando maior alcance e velocidade às pesquisas a partir da interação de seus autores, independente do tempo e do espaço. A respeito da progressiva incorporação de ferramentas tecnológicas interativas, convém referir que estas conduzem à criação de espaços de interação entre os comunicadores e os destinatários. Para André Lemos, trata-se, portanto, em insistir, não em uma lógica excludente, mas em uma dialógica da complementaridade.

Nos domínios das ciências e das tecnologias, sobretudo em nossos dias, estão presentes os problemas éticos. Criadas para salvar vidas, a biotecnologia e a engenharia genética, por exemplo, tornaram-se empórios. Comercializam órgãos, pessoas e vidas. Priorizam classe social, raça e poder. Podemos verificar que o conjunto de circunstâncias em que se produz a mensagem interfere diretamente na ética e na estética. Tudo possui uma identidade. Temos montado em nosso universo o conjunto de símbolos que nos acostumamos a utilizar. Quais conjuntos utilizamos e em quais situações são definidos pelo contexto. Assim, compreende-se que as mudanças promovidas pela tecnologia acarretam alterações na identidade cultural do ser humano. O uso de piercing, tatuagens, mitigar as marcas do envelhecimento, as salas de relacionamento virtuais provocam sensações que nos oferecem a oportunidade de transgredir os limites do corpo e acreditar que a mente está livre.

O desejo de escapar do tempo e do espaço é o que Erick Felinto estabelece como relação entre as teorias da cibercultura, o transhumanismo que elas encarnam, e o mito do ciborgue. O autor explana também sobre uma convergência entre saber teórico e imaginário ficcional. Revela que nunca antes o domínio das tecnologias e da ciência esteve tão penetrado pela retórica dos mitos e pela lógica das alegorias e metáforas. Felinto chama atenção para a maneira como os novos mitos trazem de volta à nossa “hipermodernidade”, antiqüíssimas imagens de deuses e religiões passadas.

Para André Lemos, o conceito de cibercultura está vinculado à recombinação. Esta por sua vez é resultado da soma das chamadas “três leis fundadoras”: liberação do pólo de emissão, conexão em rede e reconfiguração das mídias e práticas sociais. A liberação do pólo de emissão é considerada a primeira lei da cibercultura. Exemplificando, significa, várias vozes e discursos se manifestando em oposição à uma edição de algum veículo transmissor de massa. A segunda lei é o princípio da conectividade generalizada, que diz respeito à distribuição de informação via rede telemática. A terceira lei trata da reconfiguração dos meios e das estruturas sociais a partir das relações entre sociedade e as novas tecnologias. É necessário ressaltar que a reconfiguração de um meio tradicional não significa o seu fim, mas a sua readaptação num novo contexto, visto que cada produto tem público e demandas diferenciadas.

Contrapondo a idéia de completivo defendida anteriormente, Robert Fulghan, considera que “[...] para que alguma coisa viva é preciso que outra se afaste para abrir caminho. Não há vida sem morte. E não há exceções. Tudo passa. As coisas vêm e vão. Gente. Anos. Idade. Tudo. Gira a roda do mundo e o velho abre caminho para o novo servindo-lhe de pasto e de ninho”.

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