quarta-feira, 27 de maio de 2009
Uma triste despedida...
Para ler ouvindo “Meu refrigerador não funciona”, do álbum “A divina Comédia” (1970), dos Mutantes...
A assistente olhou para o assistente que olhou para a assistente que olhou para o vazio...
- Diga a ele o que aconteceu...
Disse um dos dois. Ou disseram os dois?...
E eu ali, perplexo, com o olhar perdido nos objetos em volta, como quem já busca um refúgio em qualquer miragem, como quem já não precisa ouvir mais nada...
- A gente tentou de tudo, mas...
E meus olhos encheram-se de lágrimas. Senti a gelidez de uma tela que me serviu de apoio à vertigem...
- Sente-se aí, por favor... O senhor está pálido...
- Ele representava muito para mim...
Foi o que consegui dizer naquele momento. Pedi um copo de água à assistente e, com o olhar contrito, mergulhei num rio de lembranças...
Lembrei-me do dia em que ele chegou a minha casa, numa manhã de sol claro e céu sem nuvens, como diria a moça do tempo. Interessante: a partir da vinda dele, nada mais foi previsível em minha vida. Tantas moças desfilaram em sua frente, enquanto os dias se sucediam num emaranhado de sentimentos sorvidos em nossa breve relação...
Nesse ínterim, quantas noites tornaram-se dia, à vista dos nossos sorrisos? Quantas tardes quentes debruçadas ao espanto de seu brilho infinito? Quantas solidões alimentadas e dissolvidas ao doce deslizar das palavras? Quantas vidas inventadas? Quantas invenções ditadas? Quantos sonhos vivenciados nas noites de insônia? Quantos planos realizados na dialética da ilusão vital que construímos?...
Quantos quantuns e quantidades inquantificáveis?...
- Aqui está o seu copo de água. Eu coloquei uma colher de açúcar, viu?
- Obrigado. Não sei nem como te agradecer...
- Não precisa. Eu só queria que você soubesse que nós fizemos de tudo para reanimá-lo. Ontem mesmo ele passou o dia inteiro ali...
Apontou-me uma mesa de mármore...
- De certa forma, eu já sabia que ele não iria resistir, mas é sempre um choque...
- Sem dúvida. A gente atende muitos casos assim. Eu também já passei por isso, acredite...
Detesto quando as pessoas tentam me consolar assim: comparando sofrimentos. E interrompi a conversa ali mesmo. Virei o rosto para um mostruário e fiquei tentando me lembrar de como crescemos juntos...
De como ele guardava, em sua memória prolífica, os momentos mais significativos de minha juventude: meus versos ingênuos eram por ele recitados a qualquer hora, minha primeira fotografia era sua imagem mais nítida, o que se pôde registrar de minha interiorana infância povoada de fantasmas e alegorias eram seus mais ricos apontamentos...
Meus devaneios, minhas dádivas, meu tudo, meu nada...
- Ó Deus, para onde vão estes seres que, ao morrer, nos deixam em completo abandono? Em que planeta paira a memória que se apaga no exato momento em que se desliga do real? Por que eu nunca dei atenção às reminiscências por ele guardadas com o fervor de um ente que aspira ser eterno, mesmo sendo finito? Por quê?...
Suspirei, numa consternação sem medida. E, não encontrando respostas, continuei navegando em lembranças...
Gramático inveterado, adorava corrigir meus deslizes gramaticais, como se eu deveras sempre precisasse de seu auxílio luxuoso. Fazia questão de me mostrar que uma palavra, por mais estranha que possa parecer, sempre tem um sinônimo ainda mais estranho. E uma imagem, por mais jornalisticamente objetiva, encerra diversas perspectivas, luzes, cores, tons...
Ser inclassificável, às vezes abandonava o papel de educador, historiador e filósofo de primeira categoria, para me entreter, com seus truques de cartas, com suas brincadeiras infantis, com suas músicas emanadas do fundo de algum cabedal infinito, com o fascínio de sua simplicidade pueril...
Um revelando ao outro, parafraseando Caetano Veloso, as dores e as delícias de sermos o que somos. E fomos. Numa cumplicidade mágica, em que nem as mais terríveis adversidades conseguem dissolver...
- A gente só precisa de sua autorização para iniciar os trabalhos...
A voz do assistente soou dolorida, junto ao último sopro de uma lembrança fugidia, que eu tentava reconstituir naquela sala cercada de objetos que só faziam aumentar ainda mais a minha aflição...
O certo é que eu já estava há mais de 20 minutos com o rosto sombrio e o copo cheio de ar, mas bem que, tal como Gilberto Gil, ele poderia lembrar “que o ar sombrio de um rosto/ está cheio de um ar vazio/ vazio daquilo que no ar do copo/ ocupa um lugar...”. Um lugar de lembranças, de momentos, de encontros e, principalmente, de despedidas: ah, tristes despedidas...
E na manhã do dia 17 de maio de 2009, de sol entre nuvens e céu cinzento, meu computador foi formatado numa Assistência Técnica, situada à Avenida Adolfo Viana, centro de Juazeiro-BA...
Estas linhas são meus primeiros registros neste outro ser múltiplo e inclassificável, de memória prolífica, resultado da morte (formatação) de um camarada importante em minha vida...
(também postado no blog de Germano: www.clubedecarteado.blogspot.com)
segunda-feira, 25 de maio de 2009
(Sérgio Paulo Rouanet)
Este fragmento fala essencialmente de liberdade. Primeiramente fala do homem que deve se libertar de um pai transcendente - que neste caso, é equivocadamente relacionado a deus, às energias superiores, quando, na verdade, deveria estar relacionado ao “pai metafísico”, criado pelo próprio homem e apresentado dogmaticamente pelas diversas religiões e que por sua vez são responsáveis pela manutenção de uma necessidade de apelo e salvação. Ou seja, Rouanet fala em um homem que deve ter coragem para rejeitar qualquer apelo a um pai transcendente e eu concordo, desde que ele reconheça quem é este pai, que a meu ver, é criação do próprio homem e nada tem a ver com Deus.
O homem se domina, no pior sentido da palavra. Ele cria os próprios mecanismos físicos e psicológicos de controle. O homem aprisiona a si mesmo para depois apelar para a própria liberdade e em meio à esse processo se julga suficientemente capaz de não se responsabilizar por isso.
O homem tal qual conhecemos é uma máquina há muito tempo forjada que não sabe seguir os próprios manuais e que não sabe o que é liberdade e talvez nem queira conhecer, pois a teme.
Este fragmento demonstra, pelo menos para mim, a completa confusão existencial na qual a humanidade se encontra. O que de fato queremos? Liberdade ou controle? Sermos humanos ou máquinas?
La Mettrie era um filósofo, defensor da razão, materialista e concebia a idéia de um “homem-máquina, sem Deus e sem alma”, um homem que deveria se valer pela inteligência, ao invés da espiritualidade.
Essa é uma visão um tanto quanto equivocada da existência humana, por ser unívoca. Acredito que o homem possa ser fruto da razão e do espírito, que se observarmos mais atentamente são indissociáveis.
O homem não é máquina, o é somente, quando trabalha no sentido de sua pedagogia do amestramento, da sua racionalidade alienada e de sua espiritualidade conturbada.
La Mettrie hoje
Não sois máquina! Homens é que sois!
A definição para o termo “Homem-máquina” envolve uma série deelementos. São conjecturas e afirmações que revelam a proximidade oudistinção entre máquina e homem. De acordo com o médico e filósofofrancês La Mettrie, inicialmente o homem mantém uma proximidade com amáquina porque ambos são desprovidos de alma.O que é preciso ressaltar, no entanto, é que quando há essa definiçãoé porque La Mattrie já tem um critério prévio para estabelecer o queseja Homem, além de todo um contexto que o permite acreditar em certasdefinições e não em outras. O fato de ser médico e de estar cercadopor um clima que favorecia a efervescência de pensamentos que iam deencontro com a sociedade da sua época, contribuía para outracompreensão acerca do homem que, por sua vez refutava a concepçãovigente, uma vez que La Mattrie acreditava numa felicidade a partir da libertação do homem com relação ao poder divino e dos poderes oriundos da organização social da época.
Uma máquina necessita de algo que a impulsione, que a faça funcionar. E se considerarmos que numa perspectiva determinista a estrutura orgânica do homem é bastante valorizada, o que deve impulsionar o funcionamento desta máquina humana é a realização das suas vontades, o
seu bem-estar, sem existir fatores que a reprimam. Assim, é a busca pela realização, pelo prazer que vai mover o funcionamento humano. A partir daí a crítica sobre a estrutura social começa a ser mais enfática, pois, para La Mettrie esta estrutura passa a atrapalhar a felicidade do homem quando interrompe a realização completa de suas vontades, impedindo, portanto, o bom funcionamento da máquina-homem.
As reflexões sobre homem, máquina, estrutura social e até mesmo sobre poder, contribuem para a discussão hodierna sobre os agentes maquínicos, ou seja, aqueles dispositivos que agem sobre nós sem que percebamos. São agentes que nos faz recalcar os nossos desejos, que limita nossas ações, e nos submete a certos ditames.
A partir todos esses questionamentos, preferimos seguir e pensar como o cineasta inglês Charles Chaplin: “Não sois máquina! Homens é que sois!”
A serviço da tecnologia
A contemporaneidade trouxe para o homem um verdadeiro dilema da modernização, de um lado a figura humana representada por todo um universo unilateral cuja razão a tem como um ser de inteligência infindável assimilando se a superioridade divina e por isso de raça única, A humanidade. Do outro a reciprocidade de conhecimentos que dão a figura expressiva do homem a construção de inanimações maquinarias que pensam e agem de acordo com seu projeto.
O “Homem e a maquina” são traços de um verdadeiro enlace intrínseco de sujeito complemento, onde a formação dependenciosa da inteligência artificial cria os chamados suportes pré obrigatórios, em que estando inseridos em uma sociedade de tamanha estantaneidade de fatos e produtos, tendemos involuntariamente a cairmos em uma substituição cada vez maior das nossas necessidades fundamentais! tais como nos comunicar, movimentar e ate mesmo raciocinar, sujeitando nos a um domínio da tecnologia a seu próprio serviço.
Os filmes “O exterminador do futuro” de James Cameron e “ Duro de matar” de Len Wiseman, também são fortes representantes das conseqüências do maquinarismo informatizado do século XXI pois revelam situações em que a própria informática robótica é arma de terroristas que tem acesso a todos os serviços sociais interligados por redes inteligentes de um servidor centralizado.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Uma observação pessoal
Por Mirrail Menezes
Apenas mais uma crítica a algo que o próprio La Mettire criticava: o preconceito. Ele fala tanto em preconceito, etc., mas não olhou em seus textos para o próprio preconceito que possuía contra o cristianismo. Não falo de instituições ou pessoas isoladas que as representem ou não. Falo de Cristianismo (algo muito maior: uma Fé, uma visão de vida e mundo, uma religião de bases filosóficas sérias – inclusive muito estudadas, caso não fosse assim as academias não citariam Sto. Agostinho ou S. Tomás de Aquino). No texto há uma afirmação assim: o cristianismo é na sociedade “uma infecção, um mal de caráter epidêmico que se propagava pelo contágio”. Acredito, como conhecedor da causa, que isso só pode ser uma afirmação de alguém que não se debruçou muito sobre um assunto para depois falar dele. E isso não aconteceu só com La Mettire. Muitos outros teóricos fizeram ou fazem isso corriqueiramente, sempre tendo como alvo o cristianismo. A começar por Nietzsche.
Enfim, isso é desabafo final. Um convite à quem quiser falar alguma coisa sobre algo para que estude bem antes disso. Até para não desrespeitar a fé e a cultura alheia (mesmo que o autor não concorde com ela). E quando falo isso não me refiro apenas aos teóricos. Penso de modo especial nos jornalistas (em formação ou não), que às vezes tem manias também de falar algo sem buscar compreender bem o assunto ou seu contexto. Utilizar reducionismos apenas para destilar criticas... E isso é algo que acontece muito hoje com o Cristianismo e a Igreja Católica, quando são tratados nos Meios de Comunicação de Massa.
Consensos e dissensos: marcas de uma natureza material?
“O Homem-Máquina Hoje”, texto de Sergio Paulo Rouanet, ao trazer as inquietações do médico Julien Offray La Mettrie, desperta-nos sentimentos diversos. Os parágrafos que provocam a embriaguez literária de uns leitores ao concordarem com seus pensamentos e teorias, ao mesmo tempo provoca a ira e a insatisfação de outros ao o verem como radical em suas palavras. Surgem assim, a partir do mesmo emaranhado de idéias, os dissensos e consensos constantes.
Acerca do pensamento do filósofo La Mettrie observa-se que muito do que ele pensou no século 18 está presente nos atuais paradigmas da pós-modernidade, cada vez mais crescentes no século em que vivemos.
Em certo momento, a leitura fez-nos entender que o filósofo-médico levanta uma discussão, própria dos iluministas, apelando para o uso da razão, exaltando mais o homem-corpo, físico, palpável, do que o homem-espírito. A alma é colocada como mera invenção de instituições religiosas que desejavam manter subjugado o próprio homem. Para La Mettrie o caminho de realização do homem passa primeiramente pela satisfação de suas necessidades biológicas.
Outro aspecto do pensamento do filósofo francês é a não diferenciação entre o ser humano e animais irracionais. O homem seria um animal qualquer, sem alma, guiado basicamente pelos impulsos naturais de seu organismo, capaz de pensar com seu cérebro, que tem como objeto a felicidade que só seria alcançada mediante a satisfação de seus desejos naturais de prazer.
Apontamos algumas considerações acerca das idéias de La Mettrie: elas nos ajudam a desconstruir um pouco nossa visão de mundo baseada apenas na educação formal e familiar que tivemos, para pensar em outros modos possíveis de se viver a vida.
A reivindicação do filósofo é pela autonomia do homem perante instituições religiosas, e contra os diversos tipos de preconceito em especial com relação ao próprio prazer (que na época era um tabu), além de sua afirmação da importância do corpo. Porém, quando La Mettrie coloca o valor do ser humano somente no que ele faz e não naquilo que ele é em sua essência (Cf. p.42), isso pode provocar uma grande desvalorização do próprio ser humano. Na lógica o-homem-vale-o-que-faz, o ser humano se torna um objeto praticamente mercadológico que vale aquilo que produz. Cabe aqui uma análise das tantas formas de exploração do homem pelo homem, algo que instalou numa sociedade de outrora e se perpetua até hoje, de forma cada vez mais intensa.
Tratam-se de reflexões que nos permitem olhar com lucidez a própria humanidade, essencial no percurso da formação de estudantes de Comunicação/Jornalismo. As provocações trazidas pelo texto podem contribuir na compreensão/apreensão de outras formas de se enxergar a vida, os preconceitos e tabus que a sociedade ainda insiste em manter, devido à pouca reflexão crítica acerca de seus próprios comportamentos.
Sergio Rouanet, aponta suas críticas com relação ao reducionismo teórico, ao niilismo moral e ao autoritarismo político de La Mettrie. Mas também, por outro lado, faz-nos questionar mais do que chegar à conclusões.
O médico-filósofo nega o livre arbítrio, entretanto, “estava convencido de que a natureza tinha constituído essa máquina como independente, capaz de auto-regulação”. Propõe que, a partir do “hedonismo (o prazer como fim último da vida) sem limites”, haja o controle social interno, através da supressão da culpa, o que é possível alcançar pela não obediência ao superego.
La Mettrie sugere a existência de uma natureza, mesmo envolvida em um conjunto de peças e engrenagens que constituem o homem-máquina. É essa natureza que nos permitiria fugir da submissão às instituições religiosas, por exemplo. Contudo, ao trazer uma objeção que dá conta de monismo radical, diz que “é sua ‘máquina’ que os impele necessariamente a uma certa direção”. Então, aqui já não há mais a determinante (se assim possamos dizer) natureza material? Nessa posição de “corpo matéria”, “homem-máquina”, a existência dos moldes na sociedade são conseqüências das máquinas ou as máquinas são conseqüências desses moldes e padrões?
No final de tudo, a autonomia (ser humano livre, dotado de emancipação social ou biológica) está submissa ao tempo, a máquina maior que permite o ir e vir das discussões, problemas e problematizações da vida humana. O vai-e-vem de idéias que viram teorias e “forjam” descobertas científicas, divinas, que se atualizam a cada geração, estão cada vez mais a nos envolver.
E envolvemo-nos tanto, que, muitas vezes, nem somos mais capazes de questionar, ter idéias, teorizar... como fez La Mettrie.
Referência
ROUANET, Sergio Paulo. O Homem-máquina hoje. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
Bibliografia
- Filme “A máquina” – João Falcão
- Espetáculo teatral “As donas da história” – da obra de João Falcão
- Leituras e conversas tantas.
Homem: um ser máquina
Inventamos, reinventamos como numa cadeia cíclica, sempre a chegar num mesmo lugar, mas o que nos fascina é esta capacidade de tentar ir além de almejar o poder divinal e transcendental de criar, de reinventar, de arquitetar como se fôssemos Deus ao criar o homem.
Para isso ele cria sem limitações e acaba reduzindo-se a uma máquina que pode ser programada a qualquer hora ou até mesmo ligada no automático.
No texto “ O Homem Máquina Hoje”, Sergio Paulo Rouanet traz essas indagações sobre a relação homem-máquina, através da história do médico Julien Of fray de La Mettrie, um revolucionário da sua época , que quebrou princípios morais de uma sociedade conservadora.Apesar de ter vivido a séculos atrás, suas idéias são mais atuais do que nunca.
La Mettrie desumanizou o homem, que é comparado a uma máquina, aproximando-o dos animais, o que cai por terra a idéia de valorização do homem, o que é um dos grandes pontos do texto, a alma que faz desse ser divino é retirada e em troca tem-se um cérebro que comanda uma engrenagem chamada corpo. Afinal, será que realmente somos superiores?
O humano dotado de sentimentos, emoções, de vida em si é máquina e também é comparado aos animais, que por não terem almas são máquinas, assim La Mettrie e Descartes descrevem e defendem a sua tese de que somos semelhantes aos animais por não termos alma, por isto somo máquinas.
Até concordamos que somos máquinas, a vida é reduzida ao botão automático, precisamos seguir a lógica da pós-modernidade, da correria diária, de não termos tempo para refletir sobre nós mesmos e sobre o mundo, não vivemos mais a vida como ela merece ser vivida, com prazer, emoções e sentimentos, as máquinas não tem tempo para isso.
Um outro, ponto trazido por La Mettri foi a busca pela felicidade, pelo prazer , o ideal de liberdade, da quebra de preconceitos ,adotando para isso os melhores meios de cada máquina para ser feliz, mas lá La Mettri peca ao pregar a felicidade individual e não coletiva, talvez porque ela pensa como máquina e como tal não é pensa no outro ,é individualista.
Será que podemos voltar? Existe o botão do off, ou será que tudo sempre foi assim, a vida é uma máquina, uma mercadoria?
Segundo Álvaro Vieira, no texto O homem e a máquina, a nossa dependência com as máquinas, a nossa relação com elas vem desde os primórdios, quando as necessidades foram surgindo. Foi com a finalidade de “ diminuir” o trabalho muscular e libertar-se do cumprimento de tarefas “que requerem penosos dispêndio de energia muscular ou mental”, que o homem criou os instrumentos, as máquinas.
Diante da evolução, aprimoramento dessas técnicas que facilitam o trabalho surgem questões a respeito desse avanço tecnológico, da cibernética.As máquinas irão substituir os homens pensantes? Elas devem ser também consideradas possuidoras de pensamento?
Segundo o autor, homem e máquina estão ligados. Ela é uma “ realização específica do homem, que nenhum animal é capaz de efetuar”. Para fabricar a máquina, é necessário informações que vão além do trabalho manual.
Para o Vieira , esses aprimoramentos sempre existiram e essas idéias surgem a partir das necessidades musculares que precisam ser supridas, a partir de necessidades coletivas.
“Na máquina são aplicadas, tanto as forças naturais, quanto a estrutura material”.Portanto, ela só existe porque essas forças naturais atuaram para gerá-la.“ A máquina deve ser interpretada como delegação do conjunto social para a realização de um trabalho que beneficia a todo um grupo humano”.
Segundo Vieira, as máquinas pouparão o homem do trabalho braçal, mas não do intelectual, tendo apenas economia de energia mental. Desse modo, quanto menos trabalho muscular, mais idéias e mais energia mental, para que assim ele possa criar outras máquinas.
O autor, diz que o trabalho não irá diminuir, mas será transferido para as modalidades mais difíceis, nobres, que é a intelectual.
“Enquanto ser social, o homem, não se contenta em ocupar nenhuma posição definitiva. Só se a sociedade deixasse de se transformar. Só assim o homem perderia o poder de conceber e tentar realizar novas fontes de ser.”
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ROUANET, Sergio Paulo. O Homem-máquina hoje. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 37-64.
O Homem, máquina do prazer
Por Quercia Oliveira
“O homem tem como vocação essencial o prazer, principalmente o prazer dos sentidos (...) e a volúpia, (...) um prazer sublimado, que o homem desfruta depois do prazer, gozando o gozo.”* Com estas palavras, Sergio Paulo Rouanet, 2003, nos apresenta a visão hedonista do médico-filósofo Julien Offray de La Mettrie, cuja concepção do homem enquanto máquina nos traz, paradoxalmente, a autonomização perante o divino e a determinação biológica da humanidade.
Num primeiro movimento, a alma, tida nos períodos clássico e medieval como transcendental, é revestida de materialida. Assim, o homem assume uma postura autônoma perante o divino e as instituições religiosas, uma vez que seus impulsos racionais estão contidos em si, e não suspensos ou determinados pelo transcendental.
Estes impulsos, contudo, meramente biológicos, a partir da visão hedonista de La Mattrie, determinam a ação humana. Dizendo de outra forma, o agir do individuo é condicionado pela satisfação de prazer dos sentidos, força autônoma sobre a qual ele não tem poder de decisão. Assim, o homem é equiparado ao animal e, seguindo a lógica de Descartes, à máquina.
Afora o reducionismo teórico e as problemáticas morais, a redução da ação humana aos impulsos biológicos, apesar de promover uma suposta libertação individual, pouco contribui para mudanças sociais, uma vez que esta dimensão e a influência do meio perante a ação do homem-máquina são, praticamente, excluídas do esquema.
Seguindo esta lógica, os contemporâneos debates e descobertas acerca do DNA humano, trazem a possibilidade da “escravidão genética” uma vez que, as características, impulsos e, conseqüentemente, ações humanas estão previstas nos seus DNAs, possíveis de fabricação em laboratório.
Afastando-nos, porém, de visões extremistas, perceberemos a contribuição de La Mettrie para a autonomização do humano, e de seu corpo, perante o julgo divino e a precedência para formulações de um homem cujo princípio norteador é a satisfação do prazer, também sexual, sem recalques. Assim, nos aproximamos do homem, enquanto máquina do prazer, de carne, osso e vontade própria, conscientemente auto-regulável.
*( ROUANET, 2003,p. 38)
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ROUANET, Sergio Paulo. O Homem-máquina hoje. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 37-64.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
O homem máquina Hoje
A máquina - O filme
A máquina do desejo de transformar a realidade árida, do desejo de colocar no mapa uma cidade nordestina, pobre, seca, onde nem mesmo o seu povo quer habitar. Esaa máquina do desejo humano pode transformar o destino de uma pessoa, de um povo, de uma nação.
Um homem submisso ao desejo.
Um corpo submisso ao prazer.
Um mundo submisso ao tempo.
Tempo, desejo, corpo, prazer, homem, mundo...
Sem desejo, nem mesmo o tempo pode transformar uma nordestina em "a Nordestina", nem o homem em "O homem", nem uma vida em "A vida".
O prazer enquanto fator distintivo
Estabelecendo um paralelo com o outro filósofo, este contemporâneo e brasileiro, Álvaro Moreira Pinto, que em seu artigo “O Homem e a Máquina” defensor da hipótese segundo a qual a diferença entre estes dois objetos do mundo consiste no fato que o segundo só e somente só pode ser gerado pelo homem em condições de convivência social. A máquina, de acordo com Moreira Pinto, é fruto das condições históricas de onde nasce enquanto objeto de/para realização de trabalho social. O homem cria objetos extra natureza para dominar adversidades climáticas, espaciais etc. Vencida as barreiras físicas, o ser histórico desenvolve novas formas de conhecimento desaguando, com isso, em formas outras de organização da vida coletiva. Ou seja, aqui as máquinas são vistas como objetos de uma intencionalidade racional subjetiva do ser humano enquanto pertencente a uma dada atmosfera social portadora de saberes anteriores, alicerce para novas descobertas maquínicas.
Se comparado com o ideal de prazer humano defendido pelo médico apresentado por Rouanet, o que colocaria em choque as duas noções de máquina seria a relação entre a o postulado do médico europeu que entende o ser humano enquanto máquina programada pela natureza para exercer a liberdade, e a do pensador brasileiro, devoto a possibilidade de máquinas, por mais sofisticadas possíveis terem finalidades pré estabelecidas, qual prazer teriam estas máquinas dos usos cotidianos, se são projeções das vontades humanas? Ao contrário da natureza, criadora e fonte de prazer para suas criaturas – as “máquinas humanas”- que gozo poderia ter uma tecla, por exemplo?
A liberdade da Máquinas
Ossos, cartilagem, derme, epiderme, mente, coração: peças de uma engrenagem capaz de transformar ambientes, realidades e mundos, cujo funcionamento só é possível com o auxilio de um combustível. Para quem adota o principio transcendental: a alma, para os que buscam a valorização do corpo pelo corpo: o prazer.
Deparamos-nos, então, com um dilema que há séculos divide opiniões. Seria o homem dono de si e, portanto cabe a ele buscar a felicidade através dos prazeres da carne? Ou o homem é regido por um ser superior e porquanto deve alimentar o espírito?
Esta discursão é bastante atual, na medida em que expressa as disparidades de uma época em que a igreja ainda tem uma forte influencia na sociedade, e em que o prazer e a satisfação pessoal são metas de uma grande parcela da população que quer se sentir incluída em determinados segmentos ou grupos sociais.
Vivemos numa época onde a aparência é supervalorizada e os ideais de beleza movimentam o capital e fazem a roda do mercado girar. Com isso, o nosso organismo não é mais regido por suas vontades naturais, mas por necessidades criadas por uma industrial cultural que tem como foco vender acima de qualquer principio moral ou ético.
E ao se debruçar sobre este discurso nos deparamos com perguntas que volta e meia nos fazem refletir; Somos livres no século XXI? Será que já conseguimos definir o que é liberdade? O conceito de liberdade é universal ou é pessoal? Qual a liberdade que queremos?
Alguns podem dizer que liberdade é poder ir e vir sem precisar dar satisfação a ninguém, outros podem achar que é o direito de expressar os seus anseios, e os mais otimistas devem afirmar que a liberdade está no exercício dos direitos humanos. Ora, mas será liberdade o “poder” seguir modelos?
Notas sobre um aparelho singular: a máquina do mundo...
“É um aparelho singular – disse o oficial ao explorador, percorrendo com um olhar até certo ponto de admiração o aparelho que ele no entanto conhecia bem”. Assim se inicia a novela “Na colônia Penal” (1914), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924).
Uma novela sucintamente alegórica, na qual o lapidar estilo kafkaniano apresenta uma máquina capaz de torturar um condenado por horas a fio, até inscrever em seu corpo o mandamento inalienável, a síntese das eras, a verdade última da humanidade, o supra-sumo: “Honra o teu superior!”.
Para acompanhar os preparativos da cerimônia de tortura e execução, um observador estrangeiro foi convidado, descrito por Kafka como “o explorador”. Além dele, participam da novela “o soldado”, “o condenado”, “o oficial” e “o comandante”, que nunca aparece fisicamente, mas que a todos assombra com uma forte onipresença.
O oficial, responsável pela criação da engenhosa máquina e encarregado de ministrar a justiça, é o guia do explorador no itinerário de toda a cerimônia de tortura. É ele quem descreve, com indisfarçável prazer, os detalhes sórdidos de uma máquina concebida para que cada condenado sinta na pele o peso de, inadvertidamente, ter cometido a “loucura” (à La Mettrie) de não se sujeitar a uma “vontade que lhe seja exterior”. Ou seja, que tenha tido a audácia de pleitear ser “autônomo”.
O explorador, arquétipo do observador neutro, objetivo e imparcial, percorre as linhas da novela com olhos e ouvidos atentos aos movimentos e palavras do oficial. Tudo parece caminhar tranquilamente para um final infeliz e previsível: a execução do condenado, a partir do funcionamento da máquina. Mas só se não for Kafka nessa hora, só se não for a figuração da “máquina do mundo” nessa hora...
E o aparelho singular, com todo o seu engenho, com toda a sua precisão, com toda a sua literalidade (até mesmo com toda a sua delicadeza), falha. O oficial, com toda a sua geométrica análise dos fatos, com todos os seus gestos e frases previamente calculados, com toda a sua humilde sujeição a uma vontade externa (a ordem de um superior), é um ser humano: de carne, osso, sentimentos e remorsos: essa “reminiscência desagradável”, esse “antigo hábito de sentir, que retoma seu predomínio”, o maior de todos os inimigos do homem, segundo La Mettrie.
Entre o remorso e a frustração de não mais conseguir colocar em funcionamento a velha “máquina do mundo”, o homem-máquina-mundo se tece na singeleza da solidão profunda...
E o grand finale (“a hora da estrela”, se, ao invés de Kafka, fosse Clarice) se apresenta: simples e eterno...
E eu não posso ir além do que já fui. Detesto quando contam o final das histórias que não li...
terça-feira, 19 de maio de 2009
A Máquina e seus combustíveis
O filme A Máquina mostra a relação do homem com o tempo. O desejo do homem de querer voltar para construir uma história diferente e também a vontade de avançar no futuro.
O protagonista Antônio( Gustavo Falcão) brinca como tempo coloca o homem numa situação superior a que vivemos, mostrando a capacidade do homem de transcender.
No enredo do filme são discutidos temas referentes à comunicação como audiência, programas de auditório, sensacionalismo, propaganda e a referida capacidade que a comunicação tem de fazer algo existir, no caso a cidade de Nordestina, que antes de aparecer nos MCM( Meios de Comunicação de Massa) não existia. Foi por meio dos MCM que Antônio colocou Nordestina no mundo e no mapa.
No filme “A Máquina- O amor é o Combustível” talvez o diretor, João Falcão, com esse título desejou mostrar que para toda ação se realizar por menor que seja tem de ter uma causa primeira, um desejo que a impulsione, no caso do filme o combustível é o amor que levou Antônio( Gustavo Falcão) a trazer o mundo para Nordestina, para que sua amada Karina( Mariana Ximenes) não lhe escapasse. Mas em outros tempos os combustíveis que permitiram a criação de tecnologias além do amor, foi a curiosidade, a insatisfação interior(sensação de que sempre falta alguma coisa) e a necessidade de conforto e comodidade( eletrodomésticos, automóveis, controle remoto, estradas, aviões, telefone,etc.)
domingo, 17 de maio de 2009
O homem e a máquina, ou seria a máquina e o homem?
O homem e a maquina, ou seria a máquina e o homem? Distinção difícil de se fazer nos dias atuais e até ao longo do tempo. Mas se considerarmos a primeira afirmação, surge outra interrogação, de onde vem essa vontade ou necessidade de se criar tantas maquinas? Essas são algumas das indagações que surgem na cabeça de várias pessoas, inclusive na minha.
E depois de assistir ao filme “A máquina”, alguns aspectos, ou melhor, atitudes são elucidadas no texto e merecem reflexão. No filme é nítido o “desejo”, talvez essa seria a palavra chave, desejo de conhecer o mundo, desejo de tê-lo nas mãos, desejo de diminuir as distancias, desejo de ser visto...
E assim sucessivamente, acredito que todas as coisas criadas no mundo até hoje foram criadas a partir do desejo do homem, sempre querendo mais, a cada nova descoberta ou criação, ele percebe que pode ir mais longe e que tudo é possível, basta querer e assim hoje vivemos num mundo onde muitos acreditam que a máquina domina, mas não por mais tecnologia que se use e por mais impressionante que seja seus feitos, ela é fruto do homem, nasceu através da criação dele.
A máquina, é o símbolo talvez do desejo humano, o homem sabe que é capaz de criar coisas extraordinárias, e o faz constantemente, a tecnologia cada dia mai nos surpreende, mas mais impressionante do que a tecnologia é capaz, é a imaginação e criatividade aliada ao desejo do homem de fazer nascer esse mundo tomado pelas máquinas que nós vivemos.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
E no oitavo dia o Homem criou a Máquina...
O homem surge. E nasce com ele a curiosidade pela praticidade. O homem pensa. Há de haver algum modo de facilitar essa vida na selva porque correr atrás de um mamute não é fácil e, muito menos, seguro. O homem tem imaginação. Monta estratégias falando com seus companheiros numa linguagem ainda desconhecida, ouve-se apenas algo parecido aos macacos. Entre um “uuuhuuaa” e outro vão caçar. De novo o problema. Matar mamute na unha é arriscado. O animal é feroz e corre atrás do homem que corre em direção de um abrigo seguro. O jeito é voltar para a caverna e pensar mais um pouco enquanto o estômago grita (antes gritando que morto).
Nas paredes das cavernas as conquistas são desenhadas e o fogo permite que eu as veja.
A máquina já existia em sua cabeça. O homem pensava. O homem tem Poiesis e o momento é de criar. Arriscou umas pedras lascadas colocou-as amarradas numa vara e correu atrás das feras para ver se dava certo. De longe, como nas olimpíadas o lançamento de varas, o homem mirava na sua caça e não é que acertava?! Mas ele percebeu que ainda podia melhorar. Assim aparece o que se chama de Tecnologia. A máquina estava dentro da cabeça do homem. O homem possuía a máquina e a máquina era já uma necessidade.
O homem é uma máquina ou a máquina é o homem?
Das idéias um liquidificador de idéias.
Alguns teóricos dizem que a máquina é uma extensão do homem e que as pessoas exageram ao dizer que o mundo vai ser tomado pelas máquinas, mas isso é tarefa para o filme O Exterminador do Futuro 1,2,3,4... e quantos mais forem criados. O que preocupa mesmo é saber de que maneira as pessoas irão se relacionar com as desvantagens das vantagens das máquinas. Sim, porque vivemos um momento de tentativa de conscientização ambiental, as empresas se dizem responsáveis ecologicamente, e acham que amenizam a situação de degradação do mundo colocando em seus kit press um material reciclado.
Vamos morar no subsolo porque não há mais espaço. Aqui em cima há um cenário maquinal como o de Metrópolis.
Mas, com a modernidade as coisas aumentam sua proporção e o homem perde o domínio das coisas que ele mesmo inventou. As máquinas não nasceram por si mesmas, elas foram criadas e esse saber produzido instaura uma espécie de poder. O filósofo Foucault trata muito desse tema em suas obras, principalmente em Microfísica do Poder, quando ele diz que “toda forma de saber produz poder”. A sociedade está sendo guiada por uma força camuflada que a tudo vê e controla. É como o Panóptico de Jeremy Bentham, um filósofo inglês que concebeu um sistema de prisão onde as celas seriam postas em círculo, individualmente, com a parte da frente virada ao olhar atento de um Diretor, instalado numa torre ao centro, que a tudo viria e não seria visto. E então, como o gado é levado pelo vaqueiro, nós vamos sendo levados por esse Olho que a tudo vê.
Só uma pergunta: alguém pode me dizer para onde estão nos levando? É que me preocupa o lugar, pois eu já me sinto totalmente desnuda e há um olhar que não sai de cima de mim!
Orwell em sua obra 1984 elabora uma teoria baseada nesse modelo de Jeremy e diz que a sociedade é governada por uma força onipresente que tortura e oprime, fazendo assim, desrumos na História. E aí me aparece o Big Brother Brasil, as câmeras de segurança internas e externas. Você caminha na rua preocupado com sua vida, as contas, o casamento, e outros assuntos de ordem particular, enquanto outros olhos avistam cada passo dado seu. No elevador do prédio onde mora no canto direito ou esquerdo do teto está um olho. Na boutique no shopping lá está aquela plaquinha até meio ridícula que diz “Sorria, você está sendo filmado.” E pra que diabos sorrir para um troço desses?! Mas parece que é só assim que nos podemos sentir seguros. Muito estranho tudo isso. A segurança está em ser vigiado o tempo todo, como se a todo momento você pudesse estar a cometer um crime.
Não quero sorrir porque estou sendo filmada. Nem vejo a íris de quem me observa...
Estou escrevendo isso aqui enquanto pessoas me observam sem que eu saiba, talvez rastreando sites que visito, arquivos que abro no computador, telefonemas que atendo, papéis que assino... Ai, ai! Se for parar para pensar acho que enlouqueço! Para onde foi parar a Lei da Privacidade? Na privada? Quem mandou dar a descarga? Ah, sim! Desculpe, deve ter sido esse tal de Panóptico que a tudo vê e controla. Como é que se desliga essa máquina? Cadê o botão on/off? Esqueço que só ela nos vê, ela que pode nos desligar do mundo, nos deixar meio neuróticos, esquizofrênicos e loucos. O que vejo mesmo é que as pessoas estão ficando cada vez mais embrutecidas e isso me entristece. Para quê escrever uma carta a punho se se pode mandar um e-mail? Para quê conversar pessoalmente de mãos dadas se existe MSN? Presenciar o pôr do sol ao vivo já virou coisa de filme. Colher uma flor nem precisa porque existe o cartão virtual mesmo... Affffff... O que o homem fez do homem? O que a máquina fez do homem? Onde está a poesia que habitava o homem, eu já quase não a encontro... parece que se perdeu há bastante tempo tanto que Drummond deixou assim escrito:
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
E muda, encerro com esse trecho da música de Gilberto Gil, Cérebro Eletrônico:

“O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo...”
(Gilberto Gil)
BIBLIOGRAFIA
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Voltas no tempo*
Karina também quer conhecer o mundo. O cenário de “A máquina” consegue construir um ambiente auto-contido, um lugarejo isolado do mundo. Por isso Karina planeja ir embora dali, e conta os dias para completar seus dezoito anos. Mas Antônio tem o poder de controlar o tempo e promete trazer o mundo para sua amada.
O filme transporta-nos para um palco, é como se o teatro pudesse conter o cinema. E, como nos ensaios de Antônio e Karina, o filme parece permitir ensaiar a vida. Antônio dá voltas no tempo, pára os segundos, revive os momentos.
Com diálogos que variam entre a brincadeira sonora (que tempo era esse, ora essas?) e ironias semânticas (segurança era o cara que ganhava para deixar o outro camarada inseguro) “A máquina” faz pensar e cantar esse tempo, esses planos, essa vida e essa poiéses que cria uma rede de outras coisas.
O tudo e o nada do amanhã permitem ao filme a construção de dois finais, ou duas saídas, ou o ensaio e o definitivo. Antônio decepciona Nordestina quando não consegue prever o futuro, e vive 50 anos para voltar a cidade, prever o futuro, e reencontrar Karina.
O longa-metragem retrata, ainda, os meios de comunicação e a faminta busca pela audiência.
*Por Thaic Carvalho 8º período de Jornalismo
Onde estão as crias de La Mettrie?
Os terráqueos se tornaram máquinas reprodutoras. Reproduze-se política, sexo, forças produtivas, forças destrutivas, mulheres, crianças, inconscientes, arte. Vive-se na reprodução indefinida de ideais, de fantasmas, de imagens, de sonhos que há tempos ficaram para trás. Caminhamos no vácuo, porque parece, que até aqui, esgotaram-se todas as possibilidades de liberação. Já não há vanguarda artística, sexual nem política com uma possibilidade de crítica radical.
Coisas continuam a funcionar ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito. E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda. A produção mundial de automóveis, por exemplo. Hoje, não se produz carros para o seu destino – pessoas. A industrialização de veículos está destinada à venda. Não importa se o produto vai ser vendido ou não. O importante é reproduzir. Outro exemplo é o sexo. Os seres tecnológicos, as máquinas, os clones, as próteses, todos eles estão transformando os seres humanos em protozoários.
A evolução(?) sucumbiu o conceito de sexo, de transa, de prazer, de desejo. Todas as tentativas atuais, entre as quais a pesquisa biológica de vanguarda, tende para o aperfeiçoamento do ser assexuado imortal em detrimento do sexuado mortal. Na época da liberação sexual, a palavra de ordem foi “o máximo de sexualidade com o mínimo de reprodução”. Atualmente, o sonho de uma sociedade clônica seria o inverso: o máximo de reprodução com o mínimo possível de sexo. E a AIDS parece ser uma das grandes ferramentas de manutenção desse novo sistema, instaurando a confusão elementar da epidemia.
O sexo não está mais no sexo, mas em toda parte. Assim como o político, que já não está no político, mas infectando todos os domínios. Cada área por assim dizer expande-se no seu mais alto nível e se generaliza, perde sua idéia, sua sombra. Quando tudo é político, nada mais é político, e a palavra já não tem sentido. Quando tudo é sexual, nada mais é sexual, e o sexo perde toda a determinação. Quando tudo é estético, nada mais é belo nem feio, e a própria arte desaparece.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
ATIVIDADE PROGRAMADA PARA 14--5-2009
Em primeiro lugar gostei dos textos postados até aqui sobre a primeira aula e o filme "A Máquina", de João Flacão. Espero pelos demais participantes!!!
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Em segundo lugar segue aí a ATIVIDADE PROGRAMADA que combinamos na aula.
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Em função de viagem para participar de reuniões em Salvador/BA, do TOPA (Coordenação de Núcleo), no dia 13 de maio, e do Programa de Interdepartamental de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação e Cultura no Meio Norte Baiano (Departamentos de Jacobina, Juazeiro e Senhor do Bonfim) com o Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação (PPG), no dia 15 de maio, e de acordo com normas institucionais, estou encaminhando esta Atividade Programa para as aulas da disciplina acima identificada, referentes ao dia 14 de maio do corrente.
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A Atividade Programada – já devidamente comunicada e combinada com os/as alunos/as – consiste no seguinte:
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1. Estão sendo disponibilizados dois textos (estão na xérox):
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a. ROUANET, Sergio Paulo. O Homem-máquina hoje. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 37-64.
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b. PINTO, Álvaro Vieira. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. (Capítulo II, O Homem e a Máquina, p. 71-134).
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2. Os alunos devem LER esses dois textos, priorizando o primeiro deles, e devem construir, individualmente ou em grupo, um texto sobre a relação entre HOMEM e MÁQUINA, e postá-lo no blog <http://www.tic-e-soc.blogspot.com/>, cujo acesso com permissão de postagem deve ser feito através do login <tic.e.soc@grupos.com.br> e da senha “*******" (preservada; os alunos já sabem dela). O prazo para esta postagem é até o dia 20 de maio de 2009, e a avaliação da atividade será procedida no dia 21 de maio de 2009.
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Josemar da Silva Martins
Professor
domingo, 10 de maio de 2009
Bom uso das tecnologias. Será?!
Algo tão inquietante para as sociedades de um modo geral sempre foi à organização do tempo e aquilo que se pode produzir nele. Mas talvez nunca tenha sido tão difícil quanto hoje. Percebendo quanto já se foi produzido por essa atual sociedade e nossas grandes diferenças.
Muita coisa mudou!! Homens e mulheres são mais exigidos pela vida. No filme A Máquina, ambientado em uma pequena cidade do sertão chamada Nordestina, Karina da rua de baixo (Mariana Ximenes) sonha em ser atriz e partir para o mundo, no entanto Antônio de Dona Nazaré (Gustavo Falcão) adianta-se para trazer o mundo até Karina. Na história, sonhos contradizem a realidade, as condições geográficas e políticas ameaçam conter a vida, e o amor desempenha o papel de elemento transformador.
O fato de Antonio amar tanto ao ponto de querer trazer o mundo a sua amada, ao invés de se obedecer ao curso normal, mostra a necessidade do homem em trazer o mundo para si, a serviço de seus interesses. Para isso, ele sai da cidade e utiliza-se de uma importante ferramenta, anuncia em um programa de televisão, que irá fazer uma viagem ao futuro, partindo da Praça de Nordestina. Se fracassar, garante que uma máquina da morte o irá destruir, ao vivo, na frente de todos.
Ao ver o filme, fica claro o nível de interesse do público pelo drástico, à medida que se fala em morte, sangue, no trágico, a audiência aumenta. É claro que a sociedade ainda se reserva a esse gosto e para isso os meios de comunicação de massa desfrutam das volumosas receitas. Se o público gosta, lucro certo.
Na verdade, parece que as tecnologias são instrumentos de potencialização de desejos, mas até onde isso é benéfico? O uso dos veículos de comunicação por parte de Antonio de Dona Nazaré serviu de subsídio para uma conquista, e quantas ‘Fontes’ não se utilizam desse mesmo fator.
Precisamos então rever algumas concepções enquanto profissionais da mídia, uso das tecnologias, confiabilidade de fontes. Ou então talvez seremos também reprodutores dos mesmos erros que tanto criticamos.
A coisa, o barulho, a náusea

Sim, lembrei-me dum trecho do livro A Pomba, de Patrick Süskind, que diz exatamente o que quero, portanto, aproprio-me delas (as palavras), serão minhas por este instante, aqui, cabíveis enormemente aqui. “Já não reina barulho suficiente nesta rua, na cidade inteira? Não basta o intenso calor que desce do céu? Vocês ainda precisam sugar com seus motores o último resto de ar respirável, para queimá-lo e soprá-lo, mesclado com veneno e ferrugem e fumaça quente, no nariz dos cidadãos decentes? Seus sacos de merda! Seus sujeitos criminosos! Vocês deveriam ser eliminados. Isso mesmo! Chicoteados e liquidados.” São como gralhas em ambiente errado, hienas descontroladas, esses homens equivocados, exibidos, orgulhosos e bestas! Suas defecações gasosas espalhadas pela atmosfera não mais azul, e sim um tecido escuro que repousa pesadamente sobre o planeta, como se quisesse sufocá-lo, apertando-o. Não são felizes, apesar de demonstrarem alguma reação que pode ser confundida à felicidade. Esse é o caso dele, que pensou ser mais feliz substituindo seus passos humanos por passadas de um objeto elétrico-motorizado. Ânimo fugaz, durando o tempo de dominar a fera de metal.
Ah, sujeito sujo! Você vai pagar em moeda dobrada! Você, criminoso, viverá imundo, impregnado de seu erro para o resto de sua vida mesquinha, pobre e solitária. Sim, você que por dentro é uma fruta sazonada, um velho à beira da morte, seco, vazio, ou cheio demais de coisas chulas, que não vive a vida por vergonha dos outros, por medo, por angústia, por brio venenoso, por querer evitar um perigo iminente! Você, essa coisa maquinal, mistura de ligas de aço pigmentado, ferro, gases, orgulho ferrenho, inútil, infantil, cioso, exibicionista! Essa coisa sem sentido, inautêntica, inaudita, perdida, incabível nesse mundo pós-moderno, que de tão pós é póstumo desejo de ser. Você que se perdeu nos valores falsos, nos falsos sentimentos, nos falsos olhares que lhe dirigem, nos falsos amigos, falácias de estranhas pessoas, de pessoas que você nem conhece pessoalmente.Você não passa de uma coisa quebrável, trocável, que se pode jogar fora sem o menor remorso, que se pode pôr outro em seu lugar a qualquer momento. Um novo modelo, mais avançado, de cor inédita, mais caro, mais garboso, mais veloz, manchado pela luxúria, comandado pela voz da arrogância de quem se sente superior. Você, essa coisa, coisamente.
*Jaquelyne de Almeida Costa - Estudante do 8º período do Curso de Comunicação Social.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
A máquina da Máquina(ou As Cinzas das Horas, umas falas de Bandeira)*
No filme, “ambientado” numa cidade pernambucana chamada Nordestina que, segundo o mapa do final da película, estar situada ali perto de Afrânio, aparece uma representação meio cênica teatral, como se os atores estivessem em um palco, ao invés de estúdios ou externas reais, comuns no cinema, um jovem casal faz do tempo uma fuga de suas vidas. Ela, atormentada com a pequenês de Nordestina, espera chegar o dia da maioridade para tentar chegar ao mundo que lhe chega pela televisão e, mais que isso, fazer parte dessa encenação global, ser do mundo ideal, onírico, mágico do audiovisual. Ele, espera o dia de fazer parte, de papel passado e tudo, com firma reconhecida, lavrado em cartório, rezado por padre, do mundo de Carine. Antônio viaja no tempo... Por várias a personagem passa em frente ao um relógio pendurado em sua oficina, indo e vindo em frente às cinzas das horas -pra lembrar um pouco do eterno Bandeira.
Mas, que será esse tal de tempo, afinal? Que máquina é essa que faz as gentes – olha o Manuel de novo – guardar, projetar, levar para brincar nos dias mais azuis do céu da gente, o desejo ou a esperança de um dia ser tudo o que quis ser e, infelizmente, ter – tocados pelas mãos do consumismo. Entre o mundo e eu, prefiro o mundo, disse o poeta. Depois das máquinas, ando mais de mão dadas com aquela que diz: cada vez mais deserto, e assim mais povoado. Mas, voltemos ao tempo, que bicho de sete cabeças e anos será este que nos faz cantar: se você vier pro Kidé e vier comigo... ou: se avexe não, amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada. Ah, o amanhã...
O tempo, cá pra nós, nada mais é do que uma tentativa de quantificar a vida, de organizar as transfigurações que compõem a vida. Daqui a noves meses nasce. Será menino ou menina? Será um guri que passa cinco anos chorando? Será uma mocinha fugitiva da coisa mais espontânea da vida tempo: amor, o combustível do tempo? Maturana afirma, amor é tão natural quanto estar vivo, é um tropeção que preenche o coração pela vida temo afora e adentro, sobretudo.
Tentar fugir do tempo, em busca de outro tempo, é tentar pular o muro das vivências mais fundas e cotidianas, é se anular pelo que não é ainda, mesmo sendo.
Mas, depois de João, Bandeira, Kidé, tempo, máquina, fica a dúvida, que é o preço da pureza, como diria um cabeludo as antigas. Qual o tempo da máquina?
*Por João Paulo Marques – aluno do 8º período de jornalismo do DCH III Uneb.


